O inferno não é injusto
Muitos enxergam a doutrina do inferno como injusta e desproporcional. Contudo, não é assim que as Escrituras a apresentam.

De todas as doutrinas do cristianismo, a do inferno é provavelmente a mais difícil de defender, a mais incômoda de crer e a primeira a ser abandonada.1
A doutrina do inferno soa estranha, pois Deus é tão cheio de misericórdia, a ponto de enviar seu Filho para ser torturado a fim de salvar o homem da própria ruína. Se há tanta misericórdia, por que há o inferno?
A doutrina do inferno pode parecer estranha porque Deus é cheio de misericórdia, a ponto de entregar Seu próprio Filho ao sofrimento e à morte para salvar pecadores da ruína. Se Deus é tão misericordioso, por que existe o inferno?
Jesus apresenta a condenação tanto como juízo divino quanto como consequência da rejeição humana a Deus. Em João 3.19, os homens são condenados porque amaram mais as trevas do que a luz; em Mateus 25, Cristo descreve a condenação como uma sentença judicial.
Portanto, o inferno não é uma pena arbitrariamente imposta a criaturas moralmente neutras. É o juízo de Deus sobre pecadores que rejeitam Seu Criador e persistem em sua rebelião.
O pecado levado às últimas consequências
O pecado possui uma dinâmica profundamente autocentrada. O homem pecador tende a colocar a si mesmo, seus desejos e sua própria vontade no centro da realidade.
Quanto mais o homem se afasta de Deus, mais se afasta também daquele que é a fonte de todo bem. Nesse sentido, a condenação pode ser entendida como a consumação judicial dessa rebelião: o pecador recebe as consequências de uma vida orientada contra Deus.
Isso não significa que o homem deseje conscientemente o sofrimento do inferno. Ele deseja, porém, viver afastado do senhorio de Deus, ainda que rejeite as consequências inevitáveis dessa escolha.
O inferno é expressão da justiça de Deus
É comum imaginar a doutrina do inferno como se ela ensinasse a existência de um Deus ressentido, cruel e vingativo, escondido atrás de uma aparência de amor e compaixão.
Mas a ira divina não deve ser confundida com ressentimento humano ou descontrole emocional. Deus julga o pecado porque é santo e justo.
Sua condenação do mal não contradiz Sua bondade. Pelo contrário: um Deus perfeitamente bom não pode tratar o bem e o mal como moralmente equivalentes.
O inferno, portanto, não representa uma falha na bondade divina, mas a manifestação de Seu juízo contra aquilo que se opõe à Sua santidade.
Por que a punição é eterna?
Outra objeção afirma que existe uma desproporção entre pecados cometidos durante uma vida finita e uma punição eterna.
Entretanto, a gravidade de um ato moral não é determinada simplesmente pelo tempo necessário para praticá-lo. Um crime pode ser cometido em poucos segundos e, ainda assim, merecer uma punição muito mais longa do que sua duração.
Além disso, Jesus coloca lado a lado a vida eterna e o castigo eterno em Mt 25.46:
“E irão estes para o castigo eterno, porém os justos, para a vida eterna.”
O mesmo termo qualifica tanto a vida dos justos quanto a punição dos ímpios. Por isso, não é fácil reduzir a duração de uma sem criar dificuldades para a outra.
A doutrina do inferno certamente é dura. Mas sua dureza, por si só, não a torna injusta. A questão decisiva é (1) se Deus possui autoridade para julgar moralmente Suas criaturas e (2) se Seu julgamento é perfeitamente santo e justo.
Se essas duas premissas forem verdadeiras, a existência do inferno não é uma contradição da justiça divina, mas uma consequência dela.
Notas de leitura
Trecho da Obra "Manual de Defesa da fé - Apologética Cristã" de Peter Kreeft ↩ Voltar ao trecho
Obras citadas
- Manual de defesa da féPeter Kreeft