Deus é a causa primeira de todas as coisas, até mesmo do mal
Uma explicação reformada de como Deus governa até os acontecimentos maus sem ser autor do pecado nem anular a responsabilidade humana.

Os turcos e circassianos incendeiam povoações, matam, maltratam mulheres e crianças, pregam os prisioneiros pelas orelhas às vedações, abandonam-nos até chegar a manhã e, então, enforcam-nos — todo o gênero de coisas que não imaginas. As pessoas falam por vezes de crueldades animalescas, mas isso é uma grande injustiça e insulto aos animais; um animal nunca poderá ser tão cruel como um homem, tão artisticamente cruel. Esses turcos tinham também prazer em torturar as crianças; em arrancar o nascituro do ventre da mãe, em atirar bebês ao ar para apanhá-los com as pontas das baionetas à frente das suas mães.
Auschwitz, o 11 de Setembro, genocídios, massacres e guerras sangrentas, todos esses acontecimentos convergem para um assunto espinhoso e difícil de debater: O problema do mal.
Como um cristão reformado, eu tenho a obrigação de admitir e reconhecer uma verdade dura: Deus é a causa primeira de todos os eventos que acontecem no mundo, incluindo as tragédias.
Não proponho responder todas as questões relacionadas ao Problema do mal (e consequentemente sobre soberania divina e livre-arbítrio), apenas pretendo explicar de forma simples como todas essas coisas, que são fruto do pecado, são decretadas por Deus e, mesmo assim, não são culpa dEle.
A Confissão de Fé de Westminster no capítulo 3, seção 1 define o seguinte:
Desde toda a eternidade, Deus, pelo conselho sapientíssimo e santíssimo de Sua própria vontade, ordenou livre e imutavelmente tudo quanto acontece; contudo, de tal modo que Deus não é o autor do pecado, nem se faz violência à vontade das criaturas, nem se elimina a liberdade ou contingência das causas secundárias; antes, estas são estabelecidas.
O que significa dizer que Deus é a causa primeira? E o que são as causas secundárias?
A causa primeira é aquela que determina decretivamente o acontecimento de um evento. Deus é a causa primeira de todas as coisas que acontecem no mundo, sejam elas boas ou más.
A causa secundária é o instrumento de efetivação de um evento decretado pela causa primeira, seja ele bom ou mau. Os seres humanos são as causas secundárias imediatas de seus atos. Deus, enquanto causa primeira, governa e ordena tanto os bons quanto os maus, embora não opere moralmente em ambos do mesmo modo. Os atos dessas causas secundárias são praticados de forma livre e sem coação.
Todavia, a causa primeira ocasiona os efeitos no mundo de modos diferentes: Deus é causa eficiente do bem enquanto produz nas criaturas tanto o querer quanto o realizar segundo sua boa vontade. No mal, porém, Deus não produz a malícia moral do ato. Ele decreta, ordena, limita e dirige providencialmente atos praticados voluntariamente por criaturas pecaminosas, cuja corrupção é a fonte imediata da maldade.
Causa positiva e causa negativa
Deus é a causa positiva de todos os atos bons neste mundo. Isto é, Deus causa em nós o desejar o bem e o fazê-lo. É Deus que capacita e impulsiona o homem a fazer o que é bom e agradável.
Deus está por trás do mal, mas de modo diferente daquele em que ele está no bem. Ele não infunde pecado na criatura nem produz nela uma disposição moralmente má. O homem é quem está por trás de um ato mau, pois a natureza de Deus é a santidade e bondade, logo Ele não pode contradizer sua natureza. Ele pode decretar a existência do mal, mas não pode praticar o ato mau que ele decreta. Portanto, Deus não pode ser a causa positiva de um ato mau. Deus é a causa negativa do mal ao retirar sua graça restritiva (que freia a maldade humana) e entregar o pecador às próprias inclinações.
Deus não é a causa positiva do pecado e da maldade
Dizer que Deus é a fonte da maldade, de maneira que o pecado brote do seu ser, é um erro. Deus não instiga ninguém a pecar, pois isso vai contra a natureza dEle. Contudo, não é contra a natureza soberana determinar que atos maus venham a acontecer. Os atos maus procedem da corrupção das próprias criaturas. Isso, porém, não significa que escapem à soberania divina: Deus decreta permitir que elas ajam segundo suas inclinações pecaminosas, limita seus atos e os dirige providencialmente para o cumprimento de Seus próprios fins